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Carl Gustav Jung

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Carl Gustav Jung

A análise da biografia desse mês vai para Carl Gustav Jung, o pai da Psicologia Analítica, um investigador incansável que se dedicou a variados campos de conhecimento na tentativa de desvendar os mistérios da alma humana. 

Jung nasceu em Kesswil (Suíça), em 26 de julho de 1875, às 19h24,  tendo o Sol em Leão e o Ascendente a 01o de Aquário. Ao buscar conhecer a si mesmo (Sol), Jung conseguiu tecer interpretações que se transformaram em um referencial teórico inovador para a sociedade (Aquário). Trata-se de um Sol de casa VII, ou seja, seu ego e sua identidade se enraizaram no domínio do outro, dando a Jung uma capacidade generosa de se projetar no lugar dos indivíduos com quem interagia e vê-los à medida que via a si mesmo. Esse posicionamento se tornou um símbolo clássico no mapa de terapeutas, pois sugere uma habilidade de, ao ser quem é, emitir um brilho que atua como um espelho para que a outra pessoa possa refletir sobre si mesma.  

Poucos meses depois de seu nascimento, a família se mudou para o presbitério do castelo de Laufen, que beira às cataratas do rio Reno. Seu pai era pastor protestante, altamente dedicado à religião, e sua mãe se dedicou a cuidar dos filhos, Carl e Emilie. Desde pequeno, sempre teve muitos sonhos, um fato que influenciou toda sua vida e trabalho, levando-o a se interessar pelo estudo da mitologia, religiões e diferentes fenômenos psíquicos. Em sua autobiografia, “Memórias, Sonhos, Reflexões” (1961), conta, em detalhes, um sonho que teria tido aos três anos de idade, o qual o impactou de tal forma que ele ainda recordava-se dele, aos oitenta e um anos, quando propôs uma interpretação.

Em Astrologia, os sonhos e o conhecimento místico são regidos por Netuno que, na carta natal de Jung, está em uma posição muito especial, no signo de Touro, na casa dos valores pessoais, mas a poucos segundos da casa seguinte que rege a mente concreta e expressão pessoal. Isso significa que, apesar de Jung ter o tridente do Senhor dos Oceanos fincado em sua casa II, esta posição permitiu que ele navegasse por sua mente, influenciando, fortemente, seu modo de interpretar o mundo e se expressar. Ele dizia que “os sonhos são as manifestações não falsificadas da atividade criativa inconsciente”. Possuía uma habilidade incrível de olhar para esse mundo interno além dos véus fantasiosos que ele apresenta, pescando os pontos de sabedoria e a percepção individual que carregam. O posicionamento também contribui para um senso muito próprio de espiritualidade; uma de suas frases célebres foi “não preciso ‘acreditar’ em Deus; eu sei que ele existe.” Uma frase que caracteriza o planeta que, apesar de ser aquático, aparece com os pés firmemente plantados no terreno e concreto signo de Touro. O planeta também é o ponto focal de descarga de um aspecto tenso entre o Sol e o Ascendente, ou seja, a busca por compreender e desenvolver o divino, dentro do humano, foi incansável.

A fé intensa e com preceitos por vezes severos, que orientavam os sermões que o pai fazia na igreja, nem sempre condiziam com a postura que este tinha em casa. Jung enxergava isso como um potencial conflito e, também, como um elemento de curiosidade frente ao comportamento humano. Na linguagem astrológica, existem dois significadores no mapa para a figura paterna: o Sol, que nos traz uma referência do masculino que atua como gerador de vida, e Saturno, que simboliza a figura austera e disciplinadora que nos impõe limites e provoca maturidade. Assim, é interessante ver que esses planetas se posicionam em signos opostos no mapa de Jung, encaixando-se muito bem  na visão dicotômica, porém complementar, que Jung expressava acerca de seu pai.  Havia um lado leonino, mais doméstico, que era  criativo,  afetuoso, e outro que se expressava no espaço público que encarnava em seu lado pastor onde guiava, de forma rigorosa e conservadora, o rebanho de seus seguidores. Mas esses aspectos estão no mapa de Jung; logo, falam dele também. 

Em relação à sua mãe, Jung a percebia como “tendo um coração animal caloroso e um grande senso de humor. Era inesperadamente poderosa, possuidora de autoridade inatacável”. Porém, em um de seus relatos, complementa que, aos oito anos, a via como misteriosa e assustadora. Em uma determinada noite, avistou uma forma luminosa de sua mãe na porta de seu quarto, “cuja cabeça se destacou e flutuou na frente dela como uma pequena lua.” A Lua é, justamente, o astro que simboliza a mãe na carta natal. No mapa de Jung, encontra-se em Touro, na casa III, abraçada a Plutão. Assim, temos, nessa conexão, tanto a explicação para a percepção poderosa e misteriosa, como altamente afável. Há, neste aspecto, informações importantes sobre a dinâmica emocional de Jung: sugere que ele tinha uma fortaleza emocional que se expressava de forma sólida e estável, possivelmente se nutrindo do conhecimento que acessava e transmutando-o  em ensinamentos. Ainda que, em momentos mais delicados, possa ter vivido rompantes emocionais, com explosões de sentimentos anárquicos, quiçá destrutivos e angustiantes, indica uma potência que o levou a processos de renascimento pessoal em diferentes momentos.

Ainda criança, Jung já expressava o espírito curioso e inquieto de um pesquisador, aliado à sede de conhecimento que saciava na escola e em diferentes livros. Um ponto de divergência que trazia frente ao pai era sua crença na ciência, sendo fascinado pelo funcionamento da vida e dos diferentes aspectos da natureza, para os quais as explicações religiosas eram insuficientes. Essa mentalidade investigativa é uma expressão de Plutão na casa III que, tonalizado por Touro, busca uma conexão muito concreta com a natureza e os processos que nos regem. Também indica um grande poder mental ao observar dinâmicas que a outros podem passar despercebidas. A capacidade de penetrar de forma profunda nos processos abstratos da mente poderia, inclusive, torná-lo obsecado pelas próprias ideias. Assim, foi buscando respostas na filosofia, na literatura, se aprofundando nos clássicos gregos e nos grandes autores. Para conciliar esses interesses, decide estudar medicina e, posteriormente, psiquiatria, visto que era uma área nova, ainda, mas que combinava o estudo da biologia do corpo humano, pensamentos e ações, algo que, naquela época, podia ser interpretado como uma conexão entre a natureza e o espírito. 

O aspecto entre Plutão e Saturno, ainda que tenso, pode ter sido a inquietação essencial que impulsionou Jung a colocar sua mente a serviço da humanidade. Porém, devemos adicionar na interpretação o fato de que, além do Sol, ele tinha Urano, o planeta das revoluções, na casa VII em Leão, regendo seu Ascendente. Assim, por meio de seu trabalho e autoria, Jung construiu um conhecimento inovador sobre o outro, revolucionado a forma de nos percebermos e de tratarmos os males que afligem a humanidade. Um caminho que não foi fácil e sem percalços, pois há, ainda que de forma larga, uma oposição entre Urano, que traz o novo, e Saturno, que busca conservar,  em sua mandala astral. Suas ideias, altamente revolucionárias na época, foram frequentemente refutadas e, até mesmo, desqualificadas. Em especial, porque contribuíam para o florescimento de uma ciência que era recém-nascida e que buscava se firmar em um mundo altamente cartesiano. Nesse sentido, reinava o poder do que poderia ser medido e visualizado na matéria, no corpo físico, tornando a sociedade acadêmica da psicologia muito refratária às ideias visionárias de um homem que via a relevância do subjetivo e simbólico.     

Em 1900, iniciou um estágio na renomada Clínica Psiquiátrica Burghölzli, em Zurique, trabalhando sob a orientação do famoso psiquiatra Eugen Bleuler. A experiência lhe permitiu avançar nos estudos de esquizofrenia e  foi seu primeiro contato com o trabalho de Freud por meio do livro A Interpretação dos Sonhos. Observando seus pacientes, percebendo que o uso de determinadas palavras evocam certas reações, ele interpretou como determinados estímulos agiam no inconsciente e despertavam cargas emocionais específicas. Isso o levou a desenvolver o teste de associação de palavras, até hoje utilizado em diagnósticos e identificação de traumas.

Em 1903, se casou com Emma Rauschenbach. Ela era a filha primogênita de um rico industrial do leste da Suíça, Johannes Rauschenbach-Schenck, sendo sete anos mais nova que Jung.  Dois anos após o casamento, seu sogro faleceu e a herança familiar ajudou a família, financeiramente, por um bom tempo. Com estes recursos, Jung tinha melhores condições de se dedicar aos seus estudos e Emma revisava e editava os textos que o marido produzia. Com o tempo, passou a se interessar pela psiquiatria e começou a trabalhar na área; primeiro, como assistente em Burghölzli, e, posteriormente, fazendo sua própria trajetória. Ainda assim, sempre foi uma esposa fiel, que prezou pela família e que buscava garantir que houvesse convivência familiar nas refeições e no tempo de lazer. Juntos, tiveram cinco filhos: Agathe, Gret, Franz, Marianne e Helene. O casamento só se encerrou com o falecimento de Emma em 1955: eles ficaram juntos por cinquenta e dois anos. Mais do que uma relação amorosa, a união de Jung e Emma foi uma grande parceria, algo muito condizente com uma relação leonina iluminada pelo astro rei. O casamento era um refúgio, um território de afeto, prazer e generosidade. Em sua morte, Jung declarou que “ela foi uma rainha!” Fortalece, ainda, o fato de Jung ter Vênus conjunta a Mercúrio em Câncer, o que o faz buscar uma parceira criativa e inteligente, com muita sensibilidade e capacidade de nutrição da vida a dois. Sim, ele teve alguns casos extraconjugais dos quais ela sabia. Para isso, temos  Urano na casa VII, trazendo uma tonalidade mais moderna e libertária nas relações. 

Em 1905, Jung tornou-se doutor em psiquiatria com a tese intitulada “Sobre a psicologia e psicopatologia dos assim chamados fenômenos ocultos”. Tornou-se médico-chefe da clínica psiquiátrica da Universidade de Zurique, cargo em que trabalhou até 1909, ainda que tenha se mantido como professor assistente até 1913. Após enviar a Freud uma cópia de seu Estudos sobre Associação de Palavras, em 1906, os dois começam um processo de correspondência e colaboração, havendo, pelo menos, trezentas e cinquenta e nove cartas conhecidas em que debatiam suas ideias. O primeiro encontro presencial ocorreu em 3 de março de 1907, em Viena, tendo os dois conversado por treze horas ininterruptas. Ao longo dos anos seguintes, seguiram se correspondendo e debatendo acerca de pesquisas, compartilhando sonhos pessoais, casos clínicos e novas ideias. Havia um encantamento entre ambos; não só compartilhavam o interesse por uma ciência nova cpmo, também, a interação que construíram permitiu que ambos pudessem amadurecer suas percepções. 

Ainda que houvessem pontos de concordância entre eles (a existência do inconsciente, de traumas reprimidos e a relevância dos sonhos como fonte de conhecimento da psique), sempre existiram percepções distintas sobre alguns fenômenos. Freud acreditava que nascemos como uma folha em branco, uma tábula rasa. À medida que vamos interagindo no mundo, vamos construindo nossa personalidade, conflitos e traumas. Jung, por sua vez, entendia que já nascemos com um conjunto de características e de elementos que vão orientar nossa personalidade; as experiências de vida vão despertar e moldar essas potencialidades. Porém, o ponto de maior conflito que levou ao rompimento entre eles foi a dificuldade de Freud aceitar o interesse de Jung por fenômenos espirituais e esotéricos, ao passo que este não acreditava que a origem dos conflitos psíquicos envolvessem, necessariamente, questões traumáticas de natureza sexual.

Quando fazemos uma sinastria entre os mapas natais de Jung e de Freud, uma série de fatores expressam a relação que eles tinham. Freud (confira aqui a análise astrológica dele: https://www.casavjornadas.com.br/freud/) tinha o Sol-Urano em Touro, um aspecto que abraçava a Lua/Plutão de Jung de forma complementar, elétrica e passional. É um aspecto que é visto comumente em casamentos e parcerias longevas porque a conexão Sol e Lua traz uma grande afinidade – o que explica o encantamento mútuo imediato.  A frase expressa por Jung ilustra muito bem essa conexão: “o encontro de duas personalidades assemelha-se ao contato de duas substâncias químicas: se alguma reação ocorre, ambos sofrem uma transformação.” Ao mesmo tempo, a presença de Urano e Plutão nesse equação trazem um carácter imprevisível e de potencial bombástico à relação; ainda que um estimulasse o intelecto e a índole investigativa do outro, a divergência de ideias foi fatal para a continuidade da parceria. 

Plutão  traz um aspecto bastante controlador e possessivo e, no mapa de Freud, se encontrava a 04° de Touro, fazendo uma aliança quase exata ao Netuno de Jung. É possível que Freud amasse em segredo (Vênus conjunta a Plutão) a capacidade imaginativa e fantasiosa (Netuno) de Jung; porém, se frustrava por não conseguir controlá-la  (Plutão). Não ajudou em nada Freud  ter um Saturno em Gêmeos, que podia se expressar de forma deveras racional, se tornando conservador e pedante (quiçá até lembrando o pai de Jung), se colocando de frente com Marte em Sagitário de Jung, fazendo com que este não tivesse medo de se aventurar em diferentes campos de conhecimento e defender suas ideias. É uma oposição entre dois deuses que não admitem arredar o pé da batalha. Seguramente, Jung ajudou Freud a fazer avanços inovadores em seu trabalho (Urano conjunto ao MC), mas é muito provável que tenha, também, atingido, com suas ações, algumas de suas feridas mais profundas (ASC em conjunção com Quíron). O rompimento foi avassalador para ambos.

Em 1908, quando Urano em trânsito fazia uma oposição ao seu Mercúrio natal, Jung é chamado para atuar como editor-chefe de um periódico científico – o recém criado Anuário de Pesquisa Psicanalítica e Psicopatológica. Começava a receber algum reconhecimento por seu pensamento inovador. No final de março de 1910, uma grande conquista. Durante o II Congresso Internacional de Psicanálise em Nuremberg, Jung é nomeado presidente da recém-fundada Associação Psicanalítica Internacional (API), tendo atuado no cargo até 1914. Dois trânsitos planetários altamente auspiciosos brilharam nesse momento, um trígono entre o Sol natal e em trânsito e outro entre Plutão e Júpiter natal. O lugar de poder e liderança que Jung assumia era uma aclamação ao seu trabalho e um reconhecendo de seu papel como autoridade no campo da psicanálise. 

Em agosto de 1911, publicou a primeira parte de Transformações e símbolos da libido, lançando a parte final apenas uma ano depois. O conceito de libido já tinha sido proposto por Freud como uma pulsão ou energia essencialmente sexual que atua na nossa psique. Porém, a partir de seus estudos com esquizofrenia, Jung vai interpretar a libido como uma energia psíquica vital, presente em toda a natureza sendo essencial para a vida. Ela a chamou também de “alma mundi”. Nos humanos, propunha Jung, a libido circularia pelo sistema nervoso central e periférico, mas agindo como uma expressão de todo e qualquer símbolo e não somente da sexualidade. Compreendendo que a psique atua como um sistema auto-regulador da libido que tende a buscar o equilíbrio dinâmico entre os opostos, sugeriu que essa poderia se mobilizar dentro dos indivíduos de forma a se direcionar ao mundo interno ao externo, criando assim a noção de personalidades introvertidas e extrovertidas. 

Outros dois conceitos complementares a esta teoria são as ideias de inconsciente coletivo e arquétipos que desenvolveu inspirado em seus estudos sobre mitologia e diferentes campos de conhecimento que se dedicam a interpretação de símbolos, entre os quais estava a astrologia. A noção de inconsciente coletivo seria referente a existência na psique humana de um “espaço” de representações universais da humanidade, dizia: “Devemos incluir, no inconsciente, também as formas a priori inatas de intuição, quais sejam, os arquétipos da percepção e da apreensão, que são determinantes, necessários, e a priori de todos os processos psíquicos. Da mesma maneira que os instintos impelem o homem a adotar uma forma de existência especificamente humana, assim, também, os arquétipos forçam a percepção e a intuição a assumirem determinados padrões especificamente humanos; os instintos e os arquétipos formam o inconsciente coletivo.” O termo “arquétipo” foi inspirado no trabalho de Santo Agostinho, denotando formas imemoriais e primordiais, sendo qualificado nos seus estudos de linguagens simbólicas  como  estruturas herdadas da cultura e da experiência coletiva que permanecem adormecidas na experiência humana até serem acionadas por processos que mobilizam a libido. 

A Astrologia foi um dos campos de conhecimento que auxiliaram Jung a elaborar essas percepções; ele dizia que “há, no homem, um firmamento como no céu”. Em uma carta escrita a Freud em 12 de Junho de 1911, lê-se: “Professor Freud, minhas noites são, em grande parte, tomadas pela Astrologia. Faço cálculos, com horóscopos a fim de encontrar pistas que me conduzam ao âmago da verdade psicológica.” Em várias obras suas, há menção à Astrologia, bem como referências aos arquétipos representados pelos planetas e signos. Além disso, Jung não só fazia o mapa astral de seus pacientes, como, também, realizou diferentes pesquisas com mapas de casais, auxiliando-o a identificar padrões de interação entre os parceiros. Importante dizer que não só a Astrologia contribui com ele; muitos conceitos, criados por Jung, são utilizados em algumas vertentes astrológicas (Para quem quiser se aprofundar, recentemente foi lançado o livro “Jung, o astrólogo” de Liz Greene). 

Aqui, não podemos deixar de mencionar que a Astrologia é regida por Aquário e Urano, havendo uma grande tendência destes padrões estarem fortemente expressos em mapas natais de astrólogos. Com Jung, não era diferente, pois, além de Urano na casa VII, já mencionado, seu Ascendente era Aquário. Assim, ele se colocava no mundo de forma original, sociável, buscando a real liberdade da alma e com uma irreverência pouco vista. Nas suas palavras: “Sou eu próprio uma questão colocada ao mundo e devo fornecer minha resposta; caso contrário, estarei reduzido à resposta que o mundo me der”. 

Em 25 de fevereiro de 1912, Jung fundou a Sociedade de Interesses Psicanalíticos, a qual ajudou a disseminar seu trabalho de psicanálise. Em 1913, conhece Edith Rockefeller e Harold McCormick, ambos filantropos americanos que passam a ser pacientes de Jung e investem em suas pesquisas, sendo os primeiros de vários patronos generosos que ele angaria ao longo dos anos. Ele tinha Júpiter em Libra na casa VIII, bem aspectado com Saturno e Marte. O aspecto pode ser traduzido por “sorte” natural, uma facilidade em receber recursos sejam estes como fruto do trabalho ou como doação de outras pessoas. Nesse sentido, Jung teve uma vida bastante próspera e não há relatos de que, em nenhum momento, possa ter tido dificuldades materiais. 

Considerando que a casa VIII também orienta os relacionamentos íntimos, é provável que ele desfrutasse de um forte apetite sexual e que tivesse uma grande capacidade regenerativa em momentos de crise. Isso era expresso por sua fé inabalável: “Não posso provar a você que Deus existe, mas meu trabalho provou, empiricamente, que o “padrão de Deus” existe em cada homem e que esse padrão (pattern) é a maior energia transformadora de que a vida é capaz de dispor ao indivíduo. Encontre esse padrão em você mesmo e a vida será transformada”. 

Quando estourou a Primeira Guerra Mundial, Jung foi convocado a servir ao exército como médico, trabalhando em um campo de internação para oficiais e soldados que abrigava militares dos dois lados do conflito devido à neutralidade suíça na Guerra. Em 1914, começa a trabalhar com Alphonse Maeder e, juntos, constroem o referencial que se torna as bases da chamada “Escola de Zurique”. É neste período que se consolida seu rompimento com Freud, algo que o afetou profundamente, levando-o a ter uma série de sonhos e visões que podiam ser interpretadas como o início de uma psicose. Nesse período, Plutão, o regente das crises, estava em trânsito em Gêmeos, se colocando de forma oposta ao Marte natal de Jung e conjunto ao Saturno de Freud. Ou seja, acionava, como uma bomba atômica, o conflito já existente entre os dois. O próprio Jung falou desse período que se tornou riquíssimo para sua obra, visto que suas visões e sonhos o impulsionam a um mergulho interno em sua própria psique, rendendo frutos pessoais e profissionais que orientaram suas obras seguintes. Em suas palavras: “Os anos durante os quais me detive nessas imagens interiores constituíram a época mais importante da minha vida e, neles, todas as coisas essenciais se decidiram. Toda a minha atividade ulterior consistiu em elaborar o que jorrava do inconsciente naqueles anos.” 

Em 1916, lança “Sete Sermões aos Mortos”, onde apresenta uma série de considerações sobre os complexos e a atuação autônoma dos arquétipos. Vale considerar que, nesse período, Jung estava com 41 anos e, possivelmente, sentindo os efeitos da chamada “crise da meia idade”, astrologicamente sinalizada pela oposição Urano-Urano e a quadratura Netuno-Netuno. Esse período não foi fácil para ele, mas, mais uma vez, transformou suas crises pessoais em referenciais para a cura. Jung propôs uma analogia muito interessante que utilizava o curso diário do Sol como uma forma simbólica de falar sobre a vida humana, sendo o nascer equivalente ao nosso próprio nascimento e o zênite solar, o momento do meio-dia, seria um ponto de inflexão que equivaleria ao nosso ápice de vida. Após esse momento, começamos a nos encaminharmos para o envelhecimento (pôr-do-sol), entrando em um processo, muito distinto em termos psicológicos, do anterior, pois a libido se recolhe para o mundo interno e desafia os valores e ideias que cultivávamos até então. Jung denomina esse tempo de “metanoia”, afirmando que, comumente, estamos despreparados para viver a segunda metade da vida, uma vez que resistimos a nos transformarmos – o que é um processo inevitável. Disse ele: “Tenho visto as pessoas tornarem-se, frequentemente, neuróticas quando se contentam com respostas erradas ou inadequadas para as questões da vida. Elas buscam posição, casamento, reputação, sucesso externo ou dinheiro e continuam infelizes e neuróticas mesmo depois de terem alcançado aquilo que tinham buscado. Essas pessoas encontram-se, em geral, confinadas a horizontes espirituais muito limitados. Suas vidas não têm conteúdo ou significado suficientes. Se têm condições para ampliar e desenvolver personalidades mais abrangentes, suas neuroses costumam desaparecer.”

O trânsito de ambos planetas, Urano e Netuno, é lento e, mesmo quando saem do aspecto partil (exato) que marca a crise recém mencionada, vão, lentamente, atuando de forma paralela em sua personalidade (casa I) e sua percepção e relação com o outro (casa VII), trazendo efeitos marcantes pelos anos seguintes. Assim, ele deve ter sentido esse movimentos como um aumento na capacidade perceptiva ao outro, em especial seus pacientes, trazendo maior fluidez e empatia (Netuno) e uma visão renovada de si mesmo (Urano), potencialmente menos repressora, contribuindo, assim, para sua própria aceitação e individuação. Esse transito de Urano também aciona seu Júpiter natal, despertando um grande anseio de conhecer novas visões de mundo. Na década de 1920, passou cinco anos realizando diferentes viagens para aprofundar seus estudos em culturas ancestrais, tendo estado no Norte da África, Novo México, Quênia e Uganda. O livro “Tipos Psicológicos” é lançado em 1921, trazendo, de forma detalhada, sua perspectiva sobre as atitudes “introvertida” e “extrovertida” da psique e as quatro funções essenciais: pensamento, sentimento, sensação e intuição. Nesta obra, aparecem, ainda, as primeiras menções ao conceito de Self que será aprofundado em publicações  posteriores. 

Nesse período, adquire uma segunda residência em Bollingen, na margem do Lago de Zurique, um espaço de retiro e tranquilidade no qual foi, cada vez, mais passando seu tempo. Em 1923, sua mãe faleceu. No período, Plutão começa a percorrer sua casa da rotina, possivelmente levando toda sua força para temas do cotidiano e da saúde. Ainda que tenha tido conquistas relevantes no período, também experimentou momentos bastantes sombrios com a ascensão do nazismo. Jung assumiu o cargo de vice-presidente da Sociedade Médica Geral para Psicoterapia em 1930, se tornando presidente da seção internacional da sociedade em 1933. Com a ascensão dos nazistas ao poder governamental, Jung passa a receber, na Sociedade Internacional, a filiação individual de médicos judeus, que eram excluídos da Sociedade Médica Geral Alemã devido ao antissemitismo. Ele cria um jornal cientifico da instituição – o Zentralblatt für Psychotherapie, pedindo que Rudolf Allers, um psicoterapeuta judeu, atuasse como editor. Ainda assim, ocorre um episódio polêmico em 1934, que leva algumas pessoas a acusarem Jung de ser simpatizante do nazismo. O processo ocorre após Matthias Göring (psicoterapeuta adleriano e adepto do nazismo, então presidente da Sociedade Médica Geral Alemã), proferir um discurso no encerramento do Congresso de Psicoterapia que é publicado no jornal da Sociedade Internacional, defendendo o nazismo e sugerindo que os participantes lessem os livros de Hitler dizendo “Quem quer que leia o livro e os discursos do Führer e estude sua natureza essencial, observará que ele tem algo de que a maioria de nós carece: Jung chama isso de intuição.”

A fala polêmica gerou indignação e o psiquiatra Gustav Bally denunciou Jung como “editor de um periódico que estava subserviente ao nazismo”. Em resposta, Jung publicou uma carta em que negou antissemitismo, lamentando a atuação de Göring e justificando sua permanência na presidência da Sociedade Internacional como uma tentativa de preservar a própria psicoterapia. Em suas palavras, “Como as condições eram, então, um único golpe da caneta em lugares altos, teria bastado para varrer toda a psicoterapia para debaixo da mesa. Isso tinha que ser evitado, a todo custo, para o bem da humanidade sofredora, os médicos, a ciência e a civilização.” Além disso, publica um livro denominado Wotan, em que tomava como inspiração o mito do Deus germânico da tempestade e da efervescência, desencadeador de paixões ávidas de combate e fazendo, com isso, uma alusão crítica ao nazismo enquanto um arquétipo que estava sendo constelado na consciência coletiva alemã. Wotan, como poderoso feiticeiro, trazia confusão aos homens pertencentes à massa, orientando-os para ações irracionais e infectando a nação com sua cólera. Era personificado em um messias que despertava  a psicose alemã. 

Existem relatos de que ele aproveitou seu status da época para “contrabandear judeus” para o exílio, tendo, inclusive, auxiliado Freud para que esse chegasse a Londres quando foi perseguido. Posteriormente, suas obras foram queimadas por ordem do regime nazista, tendo sido proibida a sua venda inclusive nas versões traduzidas em países dominados pelo regime no período. Aqui, vale lembrar os aspectos natais que já mencionamos: a oposição Urano-Saturno pode aludir à sua forma moderna e inovadora de agir, que afrontava as autoridades de um mundo mais arcaico e conservador. Considerando os trânsitos, Jung entrava em seu segundo ciclo de Saturno, um momento de amadurecimento severo que tensionaria, ainda mais, Plutão natal conjunto à Lua. A saída era uma conexão fluída entre Saturno e Marte natais, que, talvez, tenha lhe dado forças para lutar como podia, através de suas ideias, de seus recursos (Marte sextil com Júpiter) e de sua inquestionável empatia (Marte trígono com Netuno).  

Em 1935, realizou uma série de palestras em Londres, a convite do Instituto de Psicologia Médica da Clínica Tavistock, onde apresentou o conceito de “inconsciente coletivo”, ressaltando a relevância da religiosidade dos pacientes nos processos de cura. No mesmo ano, publicou “Comentário Psicológico sobre Bardo Thödol”, trazendo a público suas percepções sobre o Livro dos Mortos Tibetano e inaugurando uma interessante discussão sobre os paralelos entre o budismo tibetano e a psicologia. Em 1938, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Oxford, na Inglaterra, e, alguns anos depois, recebeu outro título honorário da Universidade de Genebra, entregue pelas mãos de Jean Piaget. Em 1944, começa a lecionar uma cátedra de medicina psicológica criada especificamente para ele na Universidade de Basileia. Realizou esse  trabalho por apenas dois anos, visto que sofreu uma embolia pulmonar que foi, paulatinamente, afetando sua saúde. Passa um período em coma, onde tem várias visões e fantasias oníricas que acaba registrando em seu Livro Vermelho como “as visões de 1944”. Faleceu aos 85 anos, em 6 de junho de 1961,  em sua casa no lago, devido a uma embolia e um acidente vascular cerebral, enquanto lia “O Fenômeno Humano” de Teilhard de Chardin. 

O legado de Jung é incomensurável sendo, até hoje, não só atual e necessário, mas objeto de estudo para que possa, realmente, se compreender, na totalidade, o conjunto extraordinário de percepções com as quais nos brindou sobre a mente e o comportamento humanos. Seu trabalho é referência não só para a psicologia e psiquiatria, como, também, para a arte, a filosofia e todo um conjunto de campos de conhecimento simbólicos e espirituais. Como poucos, ele foi capaz de, efetivamente, realizar a metáfora alquímica a qual tanto se dedicou, pois transformou a dura e sofrida realidade da mente humana em um conhecimento que permite a transcendência e cura de milhares até hoje. 

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