Amyr Klink
16 de outubro de 2023 2023-10-16 20:36Amyr Klink
A nossa homenagem, neste mês, vai para Amyr Klink, um libriano de carteirinha que nos ensina a ir de encontro às tempestades e a cooperar com a natureza. Além do Sol, Amyr tem outros três astros posicionados no signo da Balança e tem vivido uma trajetória de vida bastante peculiar, que nos traz lições importantes sobre a relação com os sistemas naturais e sobre superar limites físicos e pessoais.
Libra é o signo da cooperação e das parcerias e Amyr nasceu com duas duplas de astros cooperando nessa sintonia. Sol e Vênus, a regente de Libra, fazem uma conjunção nos primeiros graus, contribuindo para uma personalidade altamente carismática e encantadora, que tem grande habilidade de se relacionar com pessoas não só de diferentes culturas, mas, também, de segmentos sociais distintos. Nos graus finais do signo, encontramos Mercúrio e Netuno conjuntos. Aqui, o planeta da comunicação e da circulação se alia ao deus dos mares, um aspecto altamente emblemático para um homem que se tornou famoso devido sua capacidade de navegar por territórios aquáticos antes nunca explorados. Esses aspectos astrológicos brilham com intensidade na casa do trabalho, sendo pontos chaves das características mais conhecidas de Amyr. No entanto, ao conhecer sua trajetória de vida, vamos percebendo a ação de todos os planetas.
Amyr Khan Klink nasceu em São Paulo, no dia 25 de setembro de 1955, às 11h30 (fonte astro.com). Seu pai era de origem libanesa (Jamil Klink) e mãe sueca (Asa Frieberg), sendo ele o mais velho entre quatro irmãos. A família fazia viagens frequentes ao litoral carioca, em Paraty, sendo ali que Amyr desenvolveu sua paixão pelo mar. A infância ocorreu no contexto da guerra fria e foi permeada pela literatura, as corridas espaciais e o avanço tecnológico, temas todos que influenciaram muito sua personalidade. Amyr conta que foi ao ler livros como “O Pequeno Príncipe” e “20.000 léguas submarinas” que seu desejo de velejar foi despertado. Considerando a conjunção Mercúrio e Netuno, é interessante notar que é a literatura – a expressão escrita regida por Mercúrio que, em seus relatos de histórias de fantasia, lhe desperta um chamado ao mar, sendo estes dois elementos, a fantasia e os oceanos, territórios de Netuno. Este mesmo aspecto também fala sobre a capacidade incrível que Amyr tem de nos contar suas aventuras marítimas por meio de seus livros.
O escritor também lembra que a infância em Paraty lhe permitiu conviver com comunidades caiçaras do litoral fluminense, as quais lhe ensinaram muito sobre embarcações, tipos de madeiras e técnicas de construção. Ele ganhou seu primeiro barco aos 10 anos, mas só começou a atuar como remador do Clube Esperia de São Paulo aos 19 anos, em 1974. Esse também foi o ano em que fez sua primeira viagem solo, indo de moto até o Chile. Começou a faculdade de economia na USP, porém não largou o mar. Em 1978, começou a ensaiar as travessias marítimas, tendo começado com Santos-Paraty em uma canoa. Em 1980, de catamarã, percorreu o trecho Paraty-Santos e Salvador-Santos. No mesmo ano, decidiu se aventurar nas águas doces, seguindo o curso dos rios Negro e Madeira, percorrendo mais de dois mil quilômetros em um pequeno barco a motor na Amazônia. Em 1982, em um barco à vela, navegou o trecho entre Salvador, Fernando de Noronha e a Guiana Francesa, momento que aproveitou para pesquisar as correntes marinhas se preparando para a próxima viagem.
Apesar de boa parte de casa da profissão estar em Libra, ela inicia a 24º de Virgem, tendo, um pouco antes, Marte no mesmo signo. Assim, a projeção social e a carreira de Amyr se tonalizam com a disciplina, a capacidade estratégica e analítica virginiana. Todas suas viagens são antecedidas de muito preparo, organização e pesquisa, seja em termos de conhecer suas rotas e destinos, seja em termos de preparo físico e pessoal para as condições de privação que irá experienciar. Essa ação calculada é algo muito emblemático de Marte em Virgem, que aterra o aspecto colérico do planeta, fazendo com que este só entre em batalhas para as quais está muito bem preparado. Também aponta uma grande humildade, pois não se lança à aventura de forma impetuosa; antes, analisa com parcimônia e destreza cada necessidade que pode ter, buscando prever o possível e se mantendo aberto para enfrentar o incontrolável. Esses aspectos ficam bastante evidentes no episódio em que decidiu construir um “barco a remo” para sua primeira grande travessia internacional no Atlântico Sul. Sua pesquisa sobre os navegadores que haviam tentado uma travessia similar no Atlântico Norte indicou que um dos pontos chaves de desafio do percurso era o capotamento dos barcos. Assim, Amyr começou o projeto buscando construir uma embarcação “à prova de capotamento”.
Porém, com o tempo, percebeu que isso seria inevitável e que o melhor seria construir um barco que pudesse capotar sem afundar e desestruturar. Foi o que fez! A viagem levou cem dias e o barco I.A.T. capotou três vezes durante a expedição, enfrentando grandes tempestades no percurso. Amyr atracou são e salvo, com o barco intacto na praia da Espera, na Bahia, em 18 de setembro de 1984, tendo o feito lhe valido um registro no livro dos recordes. A experiência se transformou em seu primeiro livro de viagens denominado “Cem Dias Entre o Céu e o Mar” (1985). Amyr passa a se considerar um “caçador de tempestades”, conceito divulgado em seus trabalhos até hoje, que combina essa destreza em se preparar da melhor forma possível tendo a sapiência de que o imponderável e incontrolável sempre se farão presentes; portanto, temos, também, que cultivar a coragem e a ação incisiva.
Em 1986, Amyr participou de uma expedição nacional à Antártica, criando o desejo de retornar sozinho. Para tanto, projetou um novo barco, o “Paraty”. Essa habilidade construtora obviamente se vale dos aspectos virginianos já detalhados; porém, trazem fortes elementos de Capricórnio, o signo que rege as construções e todos os processos que requerem esforço, trabalho e paciência. Amyr tem o Ascendente e a Lua neste signo; assim, ainda que tenha planos grandiosos, se move de forma calculada, calma e com muito planejamento. Perseverante, prudente, responsável e sem medo de arregaçar as mangas, estando disposto a, literalmente, construir de forma calma os veículos que precisa para concretizar seus sonhos. No processo, utiliza, de forma paralela, a sabedoria ancestral dos povos tradicionais com quem conviveu em sua infância e a alta tecnologia, criando barcos práticos e capazes de atender todas suas necessidades. Nesse sentido, importante considerar que esse aspecto também fala das necessidades emocionais, visto que envolve a Lua. Apesar de estar em um posicionamento um tanto árido e seco, se torna estratégico para a solidez emocional e autocontrole que esse tipo de viagem requer. Como um signo terreno, Capricórnio nos ajuda não só a ter consciência de nossas necessidades físicas e materiais, mas, também, a valorizar e gerenciar os recursos que temos disponíveis. Em um de seus relatos comenta: “Num lugar desse, você descobre quem são seus provedores. São milhares de pessoas que você não remunera diretamente, nem agradece, não conhece ou cumprimenta, mas, graças a eles, você tem conforto. Aí você valoriza quando você é obrigado a cuidar do seu esgoto, produzir sua própria água, gerar sua energia, e enxerga quanta gente trabalha no silêncio. A grande escola da eficiência é a escassez. Ela ensina a gente”.
No dia 31 de dezembro de 1989, Amyr partiu para outra aventura rumo à Antártica. A viagem durou 13 meses, sendo que, metade do tempo, ele passou preso no gelo na Baía de Dorian. Em suas palavras: “Se cair do barco, no mar congelado, a média de sobrevivência é de apenas quatro minutos e não adiantaria voltar porque a pessoa já estaria morta. Não há chance para erros”. Com um trígono entre a Lua em Capricórnio e Marte em Virgem, Amyr tem uma habilidade de lutar por sua sobrevivência tanto física quanto emocional, de forma calma e aterrada, características que foram essenciais para que ele esperasse pacientemente o derretimento do gelo para se libertar de sua clausura. Contribui, seguramente, que ambos astros fazem aspectos fluidos, sextis, com Saturno em Escorpião, sendo este o planeta regente de Capricórnio. Assim, há uma capacidade reptiliana de sobrevivência, com um forte autocontrole perante situações de perigos. Uma de suas frases que exemplificam bem o aspecto é: “É engraçado como o bem-estar não depende do conforto, da tranquilidade ou de situações favoráveis, mas simples e unicamente da sensação de ir em frente.”
Por outro lado, Saturno se coloca de forma tensa com Júpiter e Plutão em Leão. Pode ser que haja aspectos internos muito rigorosos atuando na psique de Amyr, fazendo com que se coloque em situações de privação e, até mesmo, negação de si mesmo em tempos de crise. Também falam de uma postura bastante reservada sobre si próprio, com tendência à melancolia e até mesmo à solidão, algo que seria de se esperar de alguém que consegue permanecer longos períodos de tempo sozinho. Porém, Amyr afirma não ter experienciado esse sentimento: “Solidão foi a única coisa que eu não senti depois de partir. Nunca. Em momento algum.”
Após ter sobrevivido aos desafios da vida no extremo sul, decidiu ir ao extremo norte e começou a preparar uma nova expedição para o Ártico. Partiu em 2 de fevereiro de 1991, tendo navegado por 50 mil km durante cinco meses. Dessa viagem, dois novos livros foram produzidos: “Paraty Entre Dois Polos” (1992) e “As Janelas do Paraty” (1993). Na Astrologia, as viagens estão associadas a Sagitário, juntamente com um conjunto de experiências que nos levam a processos de expansão da mente. Neste signo, Amyr abriga a Cabeça do Dragão, um ponto obtido pelo cálculo entre a órbita da Terra ao redor do Sol e a órbita da Lua ao redor da Terra, sendo a Cauda do Dragão sua localização no extremo oposto. Também conhecidos como Nodo Norte e Nodo Sul, são aspectos que, simbolicamente, atuam como uma bússola indicando os pontos que deveriam orientar nossas experiências de vida de forma a nos desenvolvermos. Para alguns, seriam formas de aprimorar e ressignificar experiências passadas.
Com a Cabeça do Dragão em Sagitário na casa XII, podemos dizer que Amyr trouxe, como desafio, a exploração de novos territórios e a construção de conhecimentos a partir de experiências diferenciadas, de forma a impulsionar uma visão de mundo mais elevada e libertária. Nem sempre as pessoas conseguem viver os aspectos de seu mapa com profundidade e consciência, mas, nesse caso, creio que Amyr esteja fazendo um forte esforço. Uma vez, ele disse: “Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos e não, simplesmente, como é ou pode ser”. A Cabeça do Dragão faz aspectos fluidos com a conjunção Mercúrio-Netuno (conectando seu trabalho de navegador-escritor com sua missão não só profissional, mas, possivelmente, espiritual) e com o Júpiter conjunto Plutão em Leão nas fronteiras entre as crises pessoais e as viagens (casas VIII e IX). Sendo Júpiter o regente de Sagitário, há um fortalecimento do aspecto nodal que, com o impulso leonino, traz coragem e ousadia para mergulhar de forma intensa e transformadora (Plutão) buscando sabedoria (Júpiter) sobre si mesmo. Assim, acho que seria justo dizer que, a cada novo território marítimo que explorou no planeta, Amyr atravessou o mesmo percurso em seu mundo interior, transformando os desafios externos em autoconhecimento e aprimoramento psíquico.
Em 1993, ajudou a criar o Museu Nacional do Mar, localizado em São Francisco do Sul, Santa Catarina, do qual é sócio-fundador, tendo como finalidade valorizar a arte e o conhecimento dos homens que vivem no mar. Mais do que um ofício, aqui entende-se que ser marinheiro é ter um campo de conhecimento e um estilo de vida. Em 1994, começou a construir um novo veleiro, o “Paratii 2”, com o qual fez uma circunavegação em torno da Antártica, atravessando os oceanos Atlântico, Índico e Pacífico até retornar ao ponto de partida, completando, assim, o que é considerada a volta ao mundo pela sua rota mais curta e rápida, porém, mais difícil. A viagem iniciou no dia 31 de outubro de 1998, na baía de Jurumirim, tendo encerrado após oitenta e oito dias. Os relatos foram registrados no livro “Mar Sem Fim” (2000) e o “Paratii 2” foi consagrado como o veleiro polar mais seguro e eficiente do mundo.
Importante ressaltar que Amyr tem Urano, o planeta regente da tecnologia e das inovações, em Leão, lhe atribuindo uma grande capacidade intelectual e criativa, bem como uma habilidade incrível de autoconfiança. Em termos profissionais, ele se tornou famoso não apenas pela exploração de novas fronteiras marítimas, se aventurando em águas e percursos não antes percorridos, mas por fazer isso em barcos construídos por ele mesmo, tornando-o também um pioneiro. Podemos olhar para esse aspecto de uma forma mais pessoal e dizer que Amyr tem um anseio tremendo de liberdade, tornando-se uma fera quando sente sua individualidade cerceada de qualquer forma.
Temos que considerar que sua mandala astrológica apresenta Quíron retrógrado em Aquário na casa II; portanto, sob a regência de Urano e fazendo uma oposição partil que quadra com o Mercúrio/Netuno na casa X. Em conjunto, esses aspectos podem indicar que há uma ferida emocional em Amyr, a qual pode ter sido gerada em eventos de não aceitação coletiva de sua expressão criativa e senso de liberdade. Quando não valorizada, acionam um ímpeto rebelde de autossuficiência que faz com que ele se lance ao mar e ao isolamento como uma forma de lidar com as forças emocionais mobilizadas. Um mecanismo de escape, típico dessa configuração astrológica que chamamos de quadratura T. Obviamente, essa leitura não desqualifica ou desmerece em nada as conquistas do navegador, apenas lembra que nossas ações são orientadas não só por aspectos luminosos e conscientes, mas, também, por impulsos de lidar com os demônios internos que todos temos.
Em dezembro de 2003, pela primeira vez partiu em uma viagem com outros cinco tripulantes, tendo, como percurso, uma nova circunavegação à Antártica. A viagem durou setenta e seis dias, tendo sido completamente documentada e transformada em uma série, com transmissão internacional, pelo canal National Geographic – “O Continente Gelado”. A expedição também deu origem a um livro, “Linha D’Água – Entre Estaleiros e Homens do Mar” (2006). Esse trabalho teve uma contribuição importante em auxiliar a pensar a relação do homem com o ambiente natural, retratando a beleza, mas, também, a fragilidade e finitude de ecossistemas complexos frente à degradação que temos provocado, enquanto uma sociedade displicente e irresponsável, à nossa própria matriz de vida. A restrição da vida no barco nos mostra o quanto desperdiçamos recursos em nossa vida cotidiana e o impacto que esse estilo de vida tem na natureza, causando uma transformação crescente em um ambiente pouco habitado como a Antártida. Nas palavras de Amyr: “No barco, temos quatro litros de água para o banho. A média que gastamos no país é de quase cento e cinquenta litros. É um desperdício absurdo. Temos um potencial criativo na nova geração que não é desenvolvido nas escolas tradicionais”.
Esse pensamento tem sido uma parte importante de seu trabalho, pois, nos anos recentes, Amyr tem-se dedicado a ministrar palestras em seminários para empresas, escolas e universidades, abordando temas como planejamento estratégico, gerenciamento de risco, qualidade e trabalho em equipe, já tendo atuado em mais de treze países. Ao longo da vida, recebeu diversas premiações, dentre as quais destaca-se “Tilman Medal”, conferida pelo Royal Cruising Club de Londres por feitos inéditos em navegação. Amyr recebeu duas medalhas, em 1993, foi agraciado pela viagem de invernagem em solitário e, em 2000, foi premiado, novamente, pela viagem de volta ao mundo navegando em altas latitudes em regiões polares.
Entre tantas aventuras solitárias, o Sol-Vênus não podia ficar sozinho e Amyr encontrou em outra velejadora premiada um lar para seu coração. Em 1996, se casou com Marina Bandeira, uma velejadora com mais de uma centena de competições no currículo. Juntos tiveram três filhas – as gêmeas Tamara e Laura, e a caçula, Marininha, nascida no ano 2000. As meninas seguem os passos dos pais, tendo se tornado velejadoras também. Quando ainda eram mais novas, a família foi junta para à Antártica. “Como a gente não ama o que não conhece, a minha decisão foi convencer o Amyr a colocar a família toda num barco para, juntos, descobrirmos as maravilhas de um lugar distante, que ele costumava ir todos os anos, e nós, não. Valeu a pena correr todos os riscos”, conta Marina que convenceu o marido da viagem.
As três filhas, como jovens adultas, já fizeram várias expedições em conjunto, divulgando suas aventuras nas redes sociais. Tamara Klink segue firme os passos do pai como velejadora e escritora e, recentemente, aos 24 anos, tornou-se a mais jovem brasileira a fazer a travessia do Oceano Atlântico em solitário. Laura, sua irmã gêmea, tem se dedicado à fotografia e à educação ambiental, onde busca passar adiante as experiências que viveu e os ensinamentos do pai. Em suas palavras: “Meu pai me ensinou que a herança mais valiosa é aquela que você mesmo constrói”.
Amyr completou 68 anos recentemente e segue construindo um legado para todos nós sobre a coragem de vivermos nossos sonhos, deixando um mundo melhor para as novas gerações. Diz ele: “Quero viver com menos, buscar meios mais sustentáveis e eficientes. A felicidade não está em bens materiais. Vejo que a geração das meninas se importa menos com carro, acúmulo. Gosto desse exercício de pensar a vida com menos e sobre o que é essencial, de fato.”
