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PEIXES NA AVENIDA OU NO RETIRO

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PEIXES NA AVENIDA OU NO RETIRO

Por Nivaldo Pereira

Sábado de Carnaval de 2023, 19h35min. No céu, o Sol ingressa no signo de Peixes. Na Terra, milhões de humanos vibram na sintonia carnavalesca como um gigantesco cardume em que a regra é perder-se na multidão. Céu e Terra se espelham maravilhosamente: Peixes, em seu desejo de dissolução, como cabe ao signo que encerra o zodíaco, tem tudo a ver com o delírio consentido do Carnaval. Por ser uma festa móvel, que flutua conforme a data da Lua Cheia da Páscoa, o Carnaval às vezes cai no signo de Aquário, mas é em Peixes que ele encontra sua mais perfeita tradução.

Sim, Carnaval tem tudo a ver com Peixes. Afinal, o impulso natural pisciano de transcender a realidade e fantasiar pode incluir vestir literalmente uma fantasia, usar máscaras, cair na gandaia, soltar as feras, meter o pé na jaca e perder a caixa-preta atrás do trio elétrico ou do baticum do samba. Por sinal, a onda carnavalesca nos pega pelo pé, a parte pisciana do corpo. Diante do cortejo animado, cada pezinho fica que é um leque, doido para seguir a multidão-correnteza. A cantora de axé ordena: “Sai do chão, minha gente!”. E o povo pula, sem razão, pois não é hora de lucidez, mas de saudável loucura. Tudo pisciano demais.

Peixes é feito uma somatória dos signos anteriores. É como o mar absoluto, cujas águas oceânicas recebem todas as águas, dissolvem limites e oferecem um filtro de visão peculiar, que relativiza as formas. Dentro d’água, tudo pode ser – e não ser. Esse paradoxo resume o símbolo do signo: dois peixes unidos por um cordão, nadando em sentidos contrários. Tudo é relativo mesmo, como já provou o pisciano Albert Einstein. Complicado é definir ou decidir, quando o certo parece seguir a correnteza e deixar a vida levar o eu. Ou desaparecer no colorido dos cardumes.

No zodíaco, Peixes é o fim do caminho iniciado em Áries. É o fim da picada da canção, a das águas de março que fecham o verão. É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada: delírio e fragmento – ou fragmento delirante que vê em si mesmo o todo, porque sente tudo de todas as maneiras. Com a vista enevoada, Peixes borra os limites, e o mundo fica difuso, mesclando realidade e imaginação, fato e ficção, pecado e perdão. Peixes é signo duplo mais que duplo: é múltiplo. É qualquer coisa dentro doida a mexer. É a maravilha da compreensão e o desatino da ilusão.

O propósito de Peixes é retornar ao oceano de onde um dia emergiu para buscar a si mesmo no mundo. Assim, conectar-se ao que é maior que o humano torna-se imperativo. Nem todo pisciano vai gostar de fundir-se ao que é maior na louca muvuca carnal e carnavalesca. A chamada espiritualidade também fascina esse signo. E essa dimensão transcendente, como um apelo a entregar-se, encontra caminhos que vão do serviço assistencial e compassivo à criação artística, dos escapismos e adições à devoção religiosa, dos mergulhos no inconsciente aos retiros meditativos.

Todos temos Peixes no mapa astrológico, e sua faceta transcendente, em maior ou menor grau, precisa ser canalizada. Até porque a reconexão com a totalidade cósmica cura e equilibra, traz paz interior e amplia a consciência. Peixes já tem uma natural inclinação para o silêncio e a solidão, como se precisasse de um eventual afastamento do mundo ruidoso para completar-se. É preciso encontrar o próprio refúgio ou o espaço de conexão com o sagrado interior. As religiões levam isso ao pé da letra em mosteiros e conventos. E na vida comum, a meditação tem sido um dos mais criativos caminhos para nosso lado Peixes ser o Universo inteiro. Meditemos, pois.

Nivaldo Pereira – Facilitador da Casa V

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