DESVENDANDO URANO
15 de fevereiro de 2023 2023-04-25 9:13DESVENDANDO URANO

“No princípio era o Caos (vazio primordial, vale profundo, espaço incomensurável), matéria eterna, informe, rudimentar, mas dotada de energia prolífica; depois veio Géia (Terra), Tártaro (habitação profunda) e Eros (Amor), a força do desejo. O Caos deu origem à Érebo (escuridão profunda) e à Nix (Noite). Nix gerou Éter e Hemera (Dia). De Géia nasceram Urano (Céu), Montes e Pontos (Mar)” (BRANDÃO, pg. 153).
O reinado de Urano pertence à primeira geração divina e inicia-se a partir de sua união com Géia. Ele é a personificação do Céu e é o elemento fecundador da Terra.
Esta união mítica é chamada de hierogamia, ou seja, um casamento sagrado, que possui uma profundidade simbólica incomensurável. Mircea Eliade, citado por Brandão na pag. 195, refere que tal união “atualiza a comunhão entre os deuses e os homens; comunhão, por certo passageira, mas com significativas consequências, pois a energia divina convergia diretamente sobre a cidade — em outras palavras, sobre a ‘Terra’ — santificava-a e lhe garantia a prosperidade e a felicidade para o ano que começava”. Essas hierogamias acontecem em quase todas as culturas religiosas, pois falam da união entre o homem e o divino.
Da união entre Urano e Géia nasceram os Titãs, seguidos pelas Titânidas, os Cíclopes e os Hecatônquiros (monstros de cem braços e cinquenta cabeças). Assim que seus filhos chegavam ao mundo, Urano os devolvia ao seio materno, temendo ser destronado por um deles.
Diante da situação, Géia resolveu libertar seus filhos e pediu a eles que a vingassem. Um a um, todos se recusaram, exceto Crono. O filho caçula odiava o pai e, por isso, aceitou receber de sua mãe uma foice (instrumento sagrado que corta as sementes) para mutilar o próprio pai. E assim o fez. Crono cortou os testículos do pai, porém o sangue do ferimento caiu sobre Géia e a fecundou. Tempos depois, ela deu à luz as Erínias, os Gigantes e as Ninfas Melíades. Os testículos, lançados ao mar, formaram uma espuma que deu origem à Afrodite. Com isto, o caçula dos Titãs vingou a mãe e libertou os irmãos.
Com a rebelião de Crono, Urano (Céu) separou-se de Géia (Terra). O Titã, após expulsar o pai, tomou seu lugar, casando-se com Réia. Dois pontos básicos devem ser ressaltados no episódio mítico de Crono e Urano: a castração do rei e, em consequência, sua separação da rainha.
A percepção simbólica da castração é profunda porque fala de impotência, real ou simbólica, com a qual o soberano terá, fatalmente, de ser afastado do poder. A função precípua do rei é a de fecundar. Simbolicamente, da fecundação da rainha depende a fertilidade de todas as mulheres, da terra e do rebanho. A substituição do rei ocorre por vários motivos: por força da idade, da doença, porque se tornou sexualmente impotente ou porque perdeu seu poder mágico. E, nestes casos, é alijado do trono.
BRANDÃO, Junito. Mitologia Grega – Volume I. Editora Vozes, 1986.