SIMONE DE BEAUVOIR
15 de janeiro de 2023 2023-04-25 9:16SIMONE DE BEAUVOIR

Em 9 de janeiro de 1908, nascia às 4h30, em Paris, Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir, uma pessoa que revolucionou a filosofia sobre o que é ser mulher. É claro que essa informação já estava registrada na carta natal de Simone, que nasce com um Sol conjunto a Mercúrio e Urano em Capricórnio (casa II) – um talento e determinação natos para pensar e escrever de forma inovadora sobre os valores que regem nossa sociedade.
Filha de um advogado e uma socialite da burguesia francesa, teve apenas uma irmã mais nova de quem sempre foi muito próxima – Poupette. Desde pequena, se destacou nos estudos. Foi educada junto à irmã no Instituto Adeline Désir, uma escola católica para meninas. Seu pai a descrevia como “tendo uma inteligência de homem”, possivelmente acreditando que isso era um elogio ou a forma de indicar o talento acadêmico da filha. É provável que tenha herdado dele o ímpeto de dedicação intensa ao trabalho e a busca por autonomia financeira. Esses valores conservadores, católicos e um tanto moralistas que regiam seus pais são identificados no mapa pelo Sol em Capricórnio e fortalecidos pela tripla conjunção de Saturno, Marte e Lua na cúspide da casa IV, que rege a família e a ancestralidade. Assim, Simone experimentou tanto pelo lado do pai como da mãe uma dinâmica de criação restrita, autoritária e fortemente religiosa.
Em seus escritos, indica que, aos 15 anos, se declarou ateia e decidiu que seria uma escritora. Ainda assim, estudou matemática no Instituto Católico de Paris e literatura na Escola Sainte-Marie de Neuilly. Mas o local e o campo que mais a influenciaram foi a faculdade de filosofia na Sorbonne, Universidade de Paris. Foi lá que ampliou e aprofundou seus estudos e visão de mundo, tendo a colaboração de ricas trocas com outros jovens intelectuais da época como Maurice Merleau-Ponty, René Maheu e Jean-Paul Sartre.
O dom acadêmico está expresso no Ascendente em Sagitário, signo que abriga os estudos superiores sobre visões de mundo tal como a filosofia e a política, sendo, ainda, reforçado pelo regente, Júpiter, posicionado em Leão na casa VIII. Podemos traduzir como uma maestria criativa e magnânima para investigar os códigos e valores éticos que definem e resignificam as relações sociais. A mente elétrica e precoce de um Urano Mercúrio não tinha tempo a perder. Simone se formou pela Sorbonne aos 21 anos e se tornou a pessoa mais jovem a ser aprovada no concurso para professores, passando a lecionar a cátedra. Ajudou que, na época, ela vivia um trânsito de Saturno pelo seu Ascendente, pedindo amadurecimento de sua personalidade e responsabilidade frente à vida. De 1931 a 1935, ensinou filosofia em liceus femininos nas cidades de Marselha e Rouen, retornando a Paris em 1936 como professora do Liceu Molière.
Simone iniciou a publicação de seus textos durante a Segunda Guerra Mundial, produzindo uma vasta e variada obra com ensaios, peças de teatro, manifestos, romances, contos, novelas, relatos de viagem, memórias, cartas, diários, reportagens e uma série de livros. Com Netuno em Câncer na casa XII, ela possuía não só um grande senso de compaixão, mas, possivelmente, uma capacidade incrível de sentir o sofrimento de seus conterrâneos e escrever sobre a experiência da sociedade em que se inseria. Após o fim da guerra, fundou, com Sartre e Merleau-Ponty, a famosíssima revista Les Temps Modernes, dedicada a temas literários e políticos. Atuou como editora, tradutora e membro do conselho editorial até sua morte. As discussões, redigidas pelos mais céleres e proeminentes pensadores da época, foram seguramente responsáveis por fomentar o avanço não só do conhecimento, mas da modernização do pensamento ocidental sobre temas essenciais à sociedade.
Os campos filosóficos para os quais Simone mais contribuiu foram o existencialismo e a ética. Além dos aspectos jupiterianos já mencionados, seu Meio do Céu em Virgem apontava para uma habilidade única para a pesquisa e categorização, fazendo com que ela ignorasse os preceitos da época e criasse seu próprio método de crítica filosófica. Seus escritos eram disciplinados, laboriosos e ricamente detalhados. A discussão da atuação das pessoas como resistência, colaboradoras ou alienadas à realidade social vivida foram amplamente abordadas em seus textos, em parte incitadas pelos horrores vividos durante a Guerra, trazendo o questionamento sobre a responsabilidade frente aos demais indivíduos e a permissividade aos processos de violência que se testemunhava.
Mas, com certeza, sua obra mais aclamada e conhecida é “O segundo sexo”, livro escrito a partir de uma minunciosa pesquisa que começou em 1946 e foi concluída pouco antes da publicação em 1949. Ainda que não tenha sido sua intenção, o conteúdo se tornou uma das principais bases dos estudos feministas para as décadas seguintes. O livro revisa e problematiza a condição das mulheres nas sociedades ocidentais no século XX, argumentando sobre o papel da construção de processos sociais e sua influência na personalidade dos indivíduos. Assim, traz insights inovadores sobre a criação de estereótipos frente ao outro não compreendido ou aceito pelo status vigente, que recorre a subterfúgios biológicos e históricos para criar condições de subalternidade a determinadas etnias, raças, classes e religiões. É nestas páginas que a célebre frase “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher” é proposta como forma subverter o determinismo biológico do “ser mulher”, argumentando que é o processo de construção social e individual que cria as identidades. Na época de lançamento do livro, o grande benfeitor, Júpiter, passava por sua casa II, ativando o luminar e a mente elétrica de Simone que, somados à força de Saturno e Plutão em trânsito, na casa dos estudos superiores, lhe davam o empoderamento e a base conceitual adequada para problematizar um tema tão complexo e de forma tão transformadora.
Enquanto ativista, atuou em distintas frentes, mas duas, em especial, ficaram marcadas pela relevância de suas ações. Atuando no movimento de libertação das mulheres francesas, assinou, em 1971, um Manifesto em que alegava ter realizado um aborto como forma de problematizar a ilegalidade da prática no pais. A atuação levou à legalização do aborto em 1974, na França. Tão polêmica quanto, a segunda causa era a discussão sobre a determinação legal sobre a maioridade sexual de um cidadão e a descriminalização do sexo consensual, novamente envolvendo uma manifesto assinado por diferentes intelectuais e personalidades da época. Ambas as lutas, totalmente vinculadas aos direitos das mulheres, são uma marca típica de uma Vênus em Aquário que traz uma perspectiva coletivizada, fraterna e futurista sobre o feminino e as mulheres. Sua Vênus nasceu abraçada a Quiron e tinha um anseio passional de curar as feridas do feminino, abrindo caminho para as novas gerações.
Essa Vênus Urânia também brilhou com sedução e maestria nos romances e afetos, sendo Simone uma precursora dos relacionamentos livres, abertos e libertários. Sartre foi reconhecido como seu grande companheiro, pois foram parceiros ao longo de 50 anos. Mas acreditavam que o casamento é uma instituição problemática e falida; portanto, nunca oficializaram a união e mantinham uma dinâmica bastante fora do padrão, tendo, ambos, carta branca para se envolverem com quem lhes despertasse desejo e interesse. Com a casa das parcerias em Gêmeos abrigando Plutão, essa era, seguramente, a melhor solução para quem desejava versatilidade de afetos, intensidade de emoções e uma sexualidade borboletiante! Assim, se permitiu amar homens e mulheres sem distinção.
Vítima de pneumonia, morreu aos 78 anos, em 14 de abril de 1986 em sua cidade natal. Foi enterrada ao lado de Sartre no Cemitério de Montparnasse. Não teve filhos, mas é aclamada por muitas como a mãe da segunda onda feminista! Simone deu sentido ao conceito de sororidade como nenhuma outra e, por isso, somos gratas por sua ousadia, brilhantismo e sensibilidade.
Texto de Potira Preiss, aprendiz Casa V. (@potipreiss)
